Por Arnaldo Lyrio
No número anterior conversamos sobre o envelhecimento humano, sob o ponto de vista individual; sobre como nos damos conta de que o tempo passou e como avançamos no processo de envelhecer. Agora vamos tentar ampliar esta visão, com foco na vida que compartilhamos com os demais habitantes do mundo em que vivemos, e que julgamos pertencer.
Do nosso papo anterior lembramos que o filósofo chinês Lao Tsé observava, há cerca de 3 mil anos, que identificamos o processo de passagem do tempo em outras pessoas, antes de nos darmos conta do que ocorre em nós mesmos. Como se para a maioria de nós os sinais de envelhecimento fossem nítidos nos outros. Como se o tempo somente passasse lá fora, enquanto nós permanecemos eternos por dentro.
De fato, existe uma sensação irrefletida e imediatista de que vamos perdurar por aqui; assim, para muitos de nós, cada sinal percebido de que estamos envelhecendo chega com uma certa surpresa e aos poucos. Mas na medida em que o processo avança e que as limitações se fazem presentes no cotidiano, procuramos indícios nos amigos e colegas de escola, do lazer e do trabalho, da nossa faixa etária.
Quando nos damos conta das nossas condições no presente, sintonizamos lembranças do passado e nos perguntamos o que se afigura para o futuro. E, neste instante, aquela “sensação intuitiva e imediatista de ficar muito tempo por aqui” vira pó. Pois, ao visitar em memória nossa infância, adolescência e maturidade, cai a ficha de que , na verdade, vivemos agora a fase final do Ciclo de Vida dos seres vivos: o Declínio.
Resgatando os conselhos dos filósofos estoicos Cícero e Sêneca, conforme também havíamos visto anteriormente, devemos vivenciar esta importante fase da vida com sabedoria e moderação, consciência e qualidade de vida. Lembramos que a saúde e o bem estar promovidos pelo convívio social são condições fundamentais para o usufruto pleno do tempo que estamos por aqui.
Estas condições, antecipadas em séculos por Cícero e Sêneca, se incluem dentre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), especificamente o de número 3 (Saúde e Bem Estar). Esses objetivos compõem um programa de ações chamado Agenda 30, estabelecido em 2015 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, cuja finalidade é envolver as nações componentes em torno de um plano global para um mundo melhor.
Figura 1- 17 ODS e ODS 3
Fonte: ONU. Disponível em https://brasil.un.org/pt-br/sdgs. Acesso em 21mar25
Para seguirmos estas recomendações e enriquecer nossa qualidade coletiva de vida, precisamos proporcionar encontros para a realização de atividades educacionais, físicas e culturais. Esses encontros podem acontecer em qualquer lugar ou edificação que os abrigue, desde que as pessoas possam chegar ao local. E esta condição é essencial.
Portanto, o convívio social, para toda e qualquer finalidade, depende da possibilidade de se dispor de sistemas de transportes e de locais com o atributo da acessibilidade. Em suma, a acessibilidade e a mobilidade urbanas são atributos essenciais do espaço público para o aproveitamento das atividades que a vida em cidades tem a nos oferecer.
Não reconhecemos com facilidade que o número de idosos tem crescido e isso é um fato que deve ser considerado quando planejamos as cidades. E que a redução da nossa mobilidade restringe nosso acesso às coisas do mundo.
Embora a mobilidade urbana não esteja diretamente ligada à idade de uma cidade, existe uma relação entre sua densidade e a forma como ela se desenvolve.
Existem diversas pesquisas que indicam o envelhecimento acelerado da população mundial. O mesmo ocorre no Brasil, em ritmo acelerado. O gráfico a seguir compara o crescimento da população mundial e brasileira com mais de 60 anos, com o declínio da população mais jovem.
Proporção da população com idade até 14 anos e acima de sessenta anos, 1980-2070
Fonte: BNDES
Disponível em https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/conhecimento/noticias/noticia/envelhecimento-transicao-demografica. Acesso em 21mar25
Sugerimos, portanto, que os jovens planejadores urbanos do presente considerem que o espaço público é para usuários com quaisquer condições físicas e perceptivas, o que significa adotar os preceitos de Desenho Universal. Pois existe a possibilidade desse mesmo espaço público ser experimentado no futuro por eles mesmos, como nos fazem crer as pesquisas de longevidade. E podem querer fazer encontros celebrando a vida.

Arnaldo Lyrio é Arquiteto e Urbanista com Doutorado em Design e Mestrado em Arquitetura e Urbanismo, especialista em Design, Acessibilidade e Mobilidade Urbana. MBA em Administração de Marketing com ênfase em Serviços. Conselheiro Titular e Coordenador da Comissão de Acessibilidade e Mobilidade Urbana do CAU RJ; Conselheiro Titular do COMDEF-Rio. Arquiteto da Prefeitura do Rio de Janeiro.
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