Por Alessandro Lopes
Às vezes me pego imaginando o futuro como quem tenta lembrar de um sonho que ainda não teve. Não falo daquele dos filmes, com carros voadores ou robôs preparando o café. Isso, talvez, venha. Mas penso em outro tipo de futuro. Um em que o tempo volte a caber na palma da mão. Onde a cidade não seja só cenário, mas um corpo vivo que respira conosco.
Refleti sobre isso outro dia, ao olhar o céu espremido entre dois prédios. O espaço era tão estreito que mal cabia um raio de sol, mas ali, naquele vão de concreto, brotava um pé de erva-doce entre as rachaduras da calçada. Era a cidade insistindo em ser natureza. E me perguntei: será que, num futuro próximo ou em um novo centenário, ainda haverá espaço para esse tipo de milagre?
Se dependesse só da tecnologia, talvez não. A máquina é veloz no cálculo, mas tropeça na poesia. Aprende padrões, mas não sente saudade. E é disso que se faz o porvir: de saudades antecipadas daquilo que ainda nem aconteceu, mas que já desejamos preservar.
Quase cem anos atrás, Fritz Lang filmou Metrópolis, uma cidade-partida entre quem pensa e quem carrega o mundo nas costas. Era cinema. Mas também era presságio. Um aviso de que, se esquecermos do coração, o futuro pode ser um lugar solitário.
Hoje, as cidades piscam, falam, escaneiam desejos. São inteligentes em sensores, mas ainda tropeçam nos abismos de sempre: o do afeto, da escuta, da presença. Por mais conectada que seja, a cidade ainda não sabe abraçar.
É por isso que comunicação inteligente não pode ser apenas transmissão de dados. Tem que ser ponte. Olho no olho. Banco de praça com sombra. O bilhete escrito à mão dizendo: “Volto logo.” A cidade mais avançada será sempre aquela que ainda sente saudade de si mesma.
A inteligência artificial pode conectar dados em velocidade espantosa, oferecer respostas com precisão matemática, mas isso só reforça o que há de mais singular no ser humano. Porque por trás de cada algoritmo há, inevitavelmente, alguém com repertório, bagagem e sensibilidade. E o que nenhuma máquina, por mais refinada que seja, consegue substituir é a centelha criativa que nasce do improviso, do afeto, da essência.
A verdadeira inovação não está no drone que entrega comida, mas na partilha do pão. Está na arquitetura que acolhe. No urbanismo que não esquece do idoso, do invisível, do menino que joga bola com chinelo no gol. Está em reconhecer que cidades não são feitas apenas de concreto, são feitas de vínculos.
Talvez, no fim das contas, o futuro não seja um lugar, mas um modo de caminhar pelo presente. Com menos pressa. Mais presença. Porque uma cidade só é inteligente de verdade quando, entre o poste e a árvore, ainda há espaço para o coração bater.

Alessandro Lopes é arquiteto e consultor em BIM/CIM e Cidades Inteligentes, mestre em Direito Ambiental pela UNISANTOS, com foco em Cidades Criativas e Sustentáveis. Atua como Assessor na Prefeitura de Santos, liderando projetos de requalificação urbana e sustentabilidade, e como Coordenador do Curso de Arquitetura e Urbanismo da ESAMC Santos, conectando ensino, mercado e inovação. Especialista em gestão de projetos e sustentabilidade, é membro da CBIM, palestrante e comentarista em rádios e podcasts sobre inovação na construção civil. Destacam-se sua atuação na modernização da orla de Santos e na reestruturação do setor de qualidade e controle da administração pública.
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