Por Wagner Azevedo
Os empréstimos das palavras indígenas ao Português do Brasil posteriores a 1560 começam a aparecer também numa carta do professor, poeta, teatrólogo, gramático, botânico, fundador de cidades, padre jesuíta, o canarino José de Anchieta (1534-1597), em São Vicente (em que nomeia pela primeira vez algumas espécies de cobra ¹⁰, das quais aparece a sucurijuba, que chegou até nós a forma abreviada sucuri — o tupi –juba “iuua” significa “amarelo”), e em vários outros textos relacionados ao movimento das Bandeiras entre outras fontes. [Obs. 1 – este elemento composto –juba está registrado em vários documentos do Português do Brasil de origem tupi, como jurujuba (planta), mandijuba (mandi “[peixe] bagre” + yuba “amarelo”), piracanjuba (pirá’acã’yuba: pirá “peixe” + acanga “cabeça” + yuba “amarelo” = peixe de cabeça amarela, o dourado), Itajubá (itá “pedra” + yubá “amarelo” [ouro, metal amarelo] = mina de ouro), Bocaiuva (Minas Gerais) (maca-úba [bacaba “coco” + yuba “amarelo”] = nome de uma palmeira e coco macaúba) etc. Há o homônimo substantivo feminino de origem latina juba que significa “crina de leão” (CUNHA; AURÉLIO e HOUAISS, este apresenta também, por extensão, “vasta cabeleira”). Obs. 2 – amarelo = –juba, ju, juva, iú e iúba entram na composição de muitos vocábulos tupis. (CHIARADIA, 2008, p. 386)].
Várias palavras de origem indígena estão também em documentações manuscritas recolhidas pelo projeto Filologia Bandeirante. Esse projeto objetiva a publicação de textos datados da metade do século XVII a fins do século XVIII (textos relacionados ao movimento das Bandeiras). Uma parte desse documento que entre eles são bilhetes, cartas, inventários, testamentos, requerimentos, alvarás, provisões, consultas, informações e diários já se encontram publicados. Eles procedem de variados lugares, como São Paulo, Rio de Janeiro, São Vicente, Taubaté entre outros. A maioria de empréstimos das palavras indígenas que mais aparecem nos documentos estão relacionados aos topônimos e alguns estão entre nós até hoje. Eis alguns exemplos:
“hauendo dehir quintar se | o ouro que alli seacha aCasada moeda sita naCapitania deSaõ Paulo | ficariaõ os moradores dadita Villa deparanagua empedidos deopo-| derem fazer” (Treslado de confirmação, 1650: 1. 1007-09).”
“Andre fernandez daparnayba naõ foy asabaraboçu antes muy | Desuiado aoutro sertaõ abuscar somente gentio”. (Informação, 1651: 1. 1082-83).
Outra área abundante é a referente aos nomes de espécies de animais (mamíferos, répteis, aves, peixes, crustáceos e insetos) e vegetais (plantas cultivadas; palmeiras e cocos, gramíneas, bromeliáceas e cactáceas; árvores e arbustos; frutas; tipos de terrenos e de vegetação). É interessante observamos que para os animais de maior porte prevaleceu a definição em nomes de origem portuguesa, tanto para os terrestres, quanto para os aquáticos e para as aves. Eis alguns exemplos: onça (tupi já’wára, de 1610), veado (tupi sywasú, ?), anta (tupi tapi’íra, 1560), preguiça ou bicho-preguiça (tupi a’ý, 1587), arraia ou raia (tupi jabebýra, ?), boto (tupi aiká, século XX), e camarão (tupi poti, 1587).
Há lugares em que o vocábulo indígena foi adotado. Ex.: Acajutiba (Bahia) – tupi aka’yú’tyba (aka “ponta” + yú “[caju] amarelo” + tyba “muito”, “quantidade” = abundância de cajus; cajueiros); Aracaju (Sergipe) – tupi ará’cayú (ará “papagaio” + acaju “caju” = cajueiros dos papagaios”); Itu (São Paulo) – tupi y’tu (y “água” + tu “queda” = queda d’água; salto, cachoeira). Mas em alguns casos, como alimentos e animais o vocábulo português prevaleceu, com posterior difusão de uma ou das duas, principalmente na escrita. E quando isso aconteceu ambas tornaram-se sinônimas, exemplo: abóbora e jerimum (tupi jurumũ, de 1899); cágado e jabuti (tupi jaboti, de 1587), e corvo e urubu (tupi urubu, de 1587).
Com relação à literatura há dois vocábulos específicos interessantes muito conhecidos e usados no norte e nordeste do Brasil, mas que são desconhecidos pela maioria dos brasileiros de outros Estados: a moranduba (registrada desde 1763) e a poranduba (desde 1874).
A moranduba (com as variantes maranduba e maranduva) é substantivo feminino de origem tupi mora’nduwa “notícia”, “novidade” (mará “desordenar”, “barulho”, “guerra”; anduba “notícia” — moro “muito”, andu “notícias”, aub “fantástico”, “ilusório”, “histórias fantásticas”, “fábulas” ou ainda andug “sentir”, anduba “sentido”. Por extensão: “enredo”, “intriga”). No Norte e Nordeste do Brasil é a narrativa fantasiosa, inverossímil; mentira, patranha. (RODRIGUES e GREGÓRIO apud CHIARADIA, 2009). Em japonês encontrei a expressão equivalente kikô bungaku.
A poranduba, substantivo feminino de origem tupi pora’nduwa “notícia”, “pergunta” (poro “gente”; endu[ba] “ouvir”, sentir”, “perceber”) significa: 1. história narrativa oral entre os índios do Brasil; conjunto de histórias que passam de geração a geração, sobre a origem da tribo, seus heróis e atos de heroísmo; 2. narrativa de fato histórico; história, notícia: “— Irovi está me ouvindo e parou no remanso para escutar minha poranduba”. (CAVALCANTE PROENÇA. 1959, p. 251). Eu encontrei palavras equivalentes em japonês: o kôdan, e, em nagô ¹¹: os itans e esés (textos de origem nagô através dos quais os ensinamentos de todas as espécies [que outrora ocorriam sempre oralmente] são preservados e transmitidos de forma poética. Atualmente, inúmeros estudiosos têm compilado esses textos, tentando dessa forma, resgatar a principal fonte de referência e da cultura nagô — OGBEBARA. 2006, p. 83).
Considerações Finais
É quase impossível traçarmos uma relação ou diferenças precisas entre os brasileirismos de proveniência e os que se formaram durante esses quase quatro séculos do desenvolvimento da variedade brasileira, devido à complexa catalogação de fontes lexicográficas. Entretanto, podemos convergir num ponto: chegar à percepção de que os maiores empréstimos do tupi estão relacionados à fauna, flora e topônimos e que ocorriam de maneira mais diferenciada aqui no Brasil do que no uso linguístico do outro lado do Oceano Atlântico, em Portugal. Sob esse aspecto a diferenciação lexical do Português dos dois países começou no Brasil já no século XVI.
Notas
¹⁰ Staden já havia citado a muçurana, uma espécie não peçonhenta de serpente. No entanto, aparece em Staden em sentido figurado e designa entre os índios um cordão grosso com o qual amarravam, seus prisioneiros.
¹¹ jeje anago, nagôr, denominação atribuída pelos falantes dessa língua aos de língua iorubá tomados coletivamente, e que se generalizou no Brasil, anota Olga Cacciatore (HOUAISS).
Abreviaturas
atual. = atualizada
ed. = edição
et al. = et alii (e outros)
in = em
Org. = Organização
pp. = páginas
rev. = revista (verbo)

Wagner Azevedo Pereira nasceu em Nova Iguaçu/RJ – Brasil. Formou-se em Letras, com Pós-graduação (lato sensu) em Língua Portuguesa, cursa Direito, formações na Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Doutor Honoris Causa (OMDDH e APALA-RJ). Tem 36 livros publicados: 21 dicionários, 2 livros de contos, 1 de sonetos e 12 participações em antologias. Colaborou com o site E-Dicionário de Termos Literários (online) com seis verbetes inéditos: EUS, ERÓTEMA, PORANDUBA, PAI-JOÃO, ANÁBASE e CATÁBASE. É 2º Vice-Presidente do IICEM (Instituto Internacional Cultura em Movimento) e colunista da rádio Tropical AM 830, do RJ (www.tropicalam830.com), com o quadro O DICIONÁRIO ABERTO, todo 1º sábado de cada mês às 17 horas (horário de Brasília).
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O Dicionarista Wagner Azevedo Pereira nasceu em Nova Iguaçu/RJ. É formado em Letras, com Pós-graduação (lato sensu) em LP e atualmente cursa Direito (tudo na UERJ); Doutor Honoris Causa pela OMDDH (Organização Mundial dos Defensores dos Direitos Humanos) e APALA-RJ (Academia Pan-Americana de Letras e Artes – Rio de Janeiro); 2º Vice-Presidente do IICEM (Instituto Internacional Cultura em Movimento); Membro da APALA-RJ; Membro da AILB (Academia Internacional de Literatura Brasileira); colunista do quadro O DICIONÁRIO ABERTO no programa AMÉRICA NO CORAÇÃO DA BAIXADA, com a Mary Monteiro e equipe, todo 1º sábado de cada mês, das 17h às 18h, na rádio Tropical AM 830 (https://www.tropicalam830.com/ ) e colunista do Blog da ABAYOMI ACADEMY (da Flórida, EUA) em 2025. Tem 43 livros físicos publicados: 24 dicionários inéditos; 2 livros de contos (A Forma do Tempo – 2021 e O Trem da Vida – 2023); 1 livro de poemas (100 Sonetos Sobre a Música Poética Brasileira – Vol. 1 – 2025); o livro A História do Dicionário: da Suméria (séc. XXVI a.C.) aos dicionários do Brasil (séc. XXI); e 14 participações com contos, poemas e artigo em antologias no Brasil e no exterior; além de participações em revistas e coletâneas on line.


