Por Wagner Azevedo Pereira
O TUPI NA FORMAÇÃO DO PORTUGUÊS DO BRASIL – 2ª parte
Língua Geral Amazônica: a Língua Geral do Brasil, expressão empregada por Hervás (1785) deveu-se ao seu uso registrado nos documentos dos jesuítas portugueses, na segunda metade do século XVII e na primeira do XVIII, para designar a língua falada pelos mamelucos, principalmente de mães tupinambás do Pará. “Essa língua, que se tornou corrente nos povoados e nas missões do Estado do Grão-Pará — cada vez mais heterogênea pela inclusão de índios de diferentes línguas — ao longo do Rio Amazonas e de seus principais afluentes, foi-se diferenciando da língua dos tupinambás, aquela que então chamada de língua brasílica. No final do século XVII já eram compilados pelos missionários vocabulários e gramáticas da Língua Geral, assim como confessionários nessa língua, que já estava sensivelmente mudada em relação à das obras escritas para os índios tupinambás. Constituíram, portanto, duas línguas gerais: a Língua Geral Paulista, oriunda do tupi de Piratininga, e, a Língua Geral Amazônica, desenvolvida a partir do tupinambá do Pará. Esta prevalece, ao longo do vale do Rio Amazonas, desde o século XVII até hoje.” (RODRIGUES in NOLL e DIETRICH. 2010, p. 38).
O Nheengatu (< tupinambá nhe’e “fala”, “língua” + katu “bom”, “forte”, “vigoroso”, “válido”, “autêntico”) é o nome oficial da Língua Tupi ou Língua Geral do Amazonas e hoje em dia é usual referir-se a ela com esse nome. Porém, seus falantes seguem referindo-se a sua língua com o nome de “língua geral”.
Desde dezembro de 2002, quando entrou em vigor a Lei nº 145, o Nheengatu participa junto às línguas Tukano e Baniwa de um grupo de línguas indígenas cooficializadas no Estado do Amazonas, no município de São Miguel da Cachoeira. Essa é a primeira vez na história do Brasil que um Estado Federal admite em um de seus municípios outra língua, além do português do Brasil, como língua de status quo oficial. (SCHRADER-KNIFFKI in NOLL e DIETRICH. 2010, p. 220).
As palavras de origem indígena
As palavras portuguesas de origem indígena entram nos escritos do Brasil já a partir de 1511, no Livro da nau Bretoa, um diário de bordo, anos antes, portanto, da fundação de São Vicente, a primeira vila brasileira fundada por Martim Afonso de Sousa (1500-1571), em janeiro de 1532 (NOLL. 2008, p. 131-182). Neste diário, na listagem de animais, foram mencionados os nomes específicos de duas espécies, ao lado de papagaios, macacos e gatos: “It. ho capytam trespapagayos e dous toys e hu gato e sam p. todos bj peças […] It. ho mestre dous gatos e hu çagoym e sam p. todos iij peças”. (NAU BRETOA, 1511, p. 108). Em negrito [grifo nosso] estão as duas primeiras palavras do Brasil documentadas em português ⁶ de origem tupi ⁷ : o tuim (tupi tuĩ “periquito”) e o sagui.
Com a chegada dos jesuítas sob a direção do padre Manuel da Nóbrega (1517-1570), começa-se no Brasil, a literatura jesuítica, que é documentada em numerosas cartas, cuja publicação se deve a Serafim Soares Leite (1890-1969) (LEITE, 1956-1958 e CARTAS DO BRASIL, 1955 [1545-1568]). Aparece pela primeira vez numa carta traduzida para o espanhol a palavra mandioca ⁸, redigida em português, em 1549, na Bahia, por Manuel da Nóbrega — o original se perdeu. (CARTAS DO BRASIL, pp. 60 e 442). Fora da literatura jesuítica, aparece pela primeira vez o animal maracajá-açu (1587) com o adjetivo sufixo-funcional -(gu)açu (tupi –a’su, português açu > tupi –u’su, português uçu “grande”), que no Português do Brasil integra cerca de 269 formações. (cf.: HOUAISS. 2009).
Até 1557 nem os jesuítas e nem pessoas fora do clero haviam tomado nenhuma iniciativa de agir como cronista do Brasil, diferentemente do reino colonial espanhol que já dispunha na metade do século XVI, da Historia general y natural de las Indias (uma lista que continha cerca de quinhentos indianismos), de Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdés (1478-1557).
É a partir daí (de 1557) que ocorreu uma relativa e significante mudança em relação aos cronistas, com: o aventureiro mercenário alemão Hans Staden (1525-1576) que fez duas viagens ao Brasil e escreveu Wahrhaftige Historia (“História Verdadeira”), de 1557; o frade franciscano, explorador, cosmógrafo e escritor francês André Thevet (1516-1590), com seus relatos em Les singularités de la France Antarctique, de 1557 ⁹ e o missionário e escritor francês Jean de Léry (1534-1613), que escreveu a Histoire d’un Voyage fait en la terre du Brésil, publicada pela primeira vez em 1578.
É com o Tratado descritivo do Brasil, em 1587, de Gabriel Soares de Sousa, com as obras de Staden, Thevet e Léry (material de 1558) que aparecem documentadas os primórdios etnográficos da descrição da Terra, com um enorme vocabulário tupi. Estas referências superam as esporádicas citações dos jesuítas que registraram sobre a fauna, flora e costumes indígenas e apresentam o início dos empréstimos que o Português do Brasil viria testificar por escrito do século XVII em diante.
Staden menciona o milho pela primeira vez, que na designação abati (tupi abati “milho”, “arroz”) só pôde difundir-se regionalmente no Português do Brasil (HOUAISS. 2009); e apresenta-nos o cipó (tupi isá “galho” + pó “mão”), uma palavra típica da floresta, que é conhecida como liana (< francês liane; inglês liana), na Europa. Houaiss registra mais de cem derivações e composições de cipó.
Thevet relata uma curiosidade: o pétun “tabaco”, “fumo”. Essa palavra só é difundida regionalmente no Português sob a forma de petume. Ela foi aceita no francês como a derivação pétuner “fumar”, “aspirar rapé” e um concorrente terminológico para tabac. Foi no século XIX que se cunhou o termo francês pétunia, como nome de gênero de petúnias endêmicas da América do Sul, que é, com o tabaco, uma solanácea e é cultivada como planta ornamental na Europa. A palavra foi desenvolvida como petúnia em Português.
Para o tapir (tupi tapyr), o Português já possuía o vocábulo anta (< árabe lamt “espécie de antílope”). Atualmente ela é a mais corrente, enquanto tapir entrou na terminologia científica (Tapirus terrestris). O tapyr só é registrado no Português em 1851 (CUNHA. 2008).
Interessante é a referência ao jaguar (tupi ya’gwara). Foi registrado tanto por Staden quanto por Lévy, mas que em Português não foi documentado antes de 1610 pelo fato de haver a denominação específica onça (latim/grego lynx).
Enquanto com o termo tuim já se mencionava em 1511 uma espécie brasileira de papagaio, é Jean de Léry quem registra o nome da grande arara. Isto talvez se deva ao fato de que havia registro, para uma de nominação mais genérica, a palavra papagaio, já no século XIII, o qual remonta indiretamente ao árabe babbagã (NOLL. 2008, p. 73).
Outra curiosidade é o animal preguiça ou bicho-preguiça que conservou em francês o nome tupi aí, também registrado por Léry, enquanto que o Brasil, na linguagem comum, ele foi designado pela característica comportamental lenta (preguiça). Em Português aí (ANCHIETA, 1958 [1560], p. 222; “aîg”) não se impôs, exceto em compostos (aí-mirim — tupi mirĩ “pequeno”), devido à interferência com a advérbio de lugar homônimo.

Wagner Azevedo Pereira nasceu em Nova Iguaçu/RJ – Brasil. Formou-se em Letras, com Pós-graduação (lato sensu) em Língua Portuguesa, cursa Direito, formações na Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Doutor Honoris Causa (OMDDH e APALA-RJ). Tem 36 livros publicados: 21 dicionários, 2 livros de contos, 1 de sonetos e 12 participações em antologias. Colaborou com o site E-Dicionário de Termos Literários (online) com seis verbetes inéditos: EUS, ERÓTEMA, PORANDUBA, PAI-JOÃO, ANÁBASE e CATÁBASE. É 2º Vice-Presidente do IICEM (Instituto Internacional Cultura em Movimento) e colunista da rádio Tropical AM 830, do RJ (www.tropicalam830.com), com o quadro O DICIONÁRIO ABERTO, todo 1º sábado de cada mês às 17 horas (horário de Brasília).
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Notas
⁶ Ambrósio Fernandes Brandão descreve estes animais nos Diálogos das grandezas do Brasil da maneira que se segue: “tuins, de pequeno corpo e mui lindo, que explicam arrazoadamente tudo que lhes ensinam”, “os formosos e lindos saguis que se criam nesta província, donde os levam para Portugal, com serem lá estimados pelo seu bom cabelo, pequeno corpo, feições do rosto e viveza dos espíritos” (BRANDÃO. 1997 [1618], pp. 173, 204).
⁷ Tuim “ave psitaciforme, […] tem coloração geral verde […]”; sagui “designação comum às espécies de primatas, da família dos calitriquídeos, com cinco gêneros e várias espécies em território brasileiro […]” (AURÉLIO. s.v.). O francês também tomou emprestado sagui (DDM. 1537, s.v. sagouin). Cf.: FRIEDERICI (1960, saguin; tuim) e CUNHA (1989, s.v.).
⁸ O espanhol, por sua vez, recebeu a palavra emprestada do guarani. É atestada em 1527 em Enrique Montes (mandioque) (RIBEIRO e MOREIRA NETO. 1992, p. 112).
⁹ A obra é datada algumas vezes como sendo de 1558. Segundo Lestringant, apareceu, porém, já numa edição em 1557 (cf.: THEVET. 1997 [1557]).
Abreviaturas
cf. = confira
in = em
pp. = páginas
s.v. = sobre verbete
O Dicionarista Wagner Azevedo Pereira nasceu em Nova Iguaçu/RJ. É formado em Letras, com Pós-graduação (lato sensu) em LP e atualmente cursa Direito (tudo na UERJ); Doutor Honoris Causa pela OMDDH (Organização Mundial dos Defensores dos Direitos Humanos) e APALA-RJ (Academia Pan-Americana de Letras e Artes – Rio de Janeiro); 2º Vice-Presidente do IICEM (Instituto Internacional Cultura em Movimento); Membro da APALA-RJ; Membro da AILB (Academia Internacional de Literatura Brasileira); colunista do quadro O DICIONÁRIO ABERTO no programa AMÉRICA NO CORAÇÃO DA BAIXADA, com a Mary Monteiro e equipe, todo 1º sábado de cada mês, das 17h às 18h, na rádio Tropical AM 830 (https://www.tropicalam830.com/ ) e colunista do Blog da ABAYOMI ACADEMY (da Flórida, EUA) em 2025. Tem 43 livros físicos publicados: 24 dicionários inéditos; 2 livros de contos (A Forma do Tempo – 2021 e O Trem da Vida – 2023); 1 livro de poemas (100 Sonetos Sobre a Música Poética Brasileira – Vol. 1 – 2025); o livro A História do Dicionário: da Suméria (séc. XXVI a.C.) aos dicionários do Brasil (séc. XXI); e 14 participações com contos, poemas e artigo em antologias no Brasil e no exterior; além de participações em revistas e coletâneas on line.


