O TUPI NA FORMAÇÃO DO PORTUGUÊS DO BRASIL (1ª parte)

Por Wagner Azevedo

É nosso objetivo mostrar nesse trabalho algumas das primeiras palavras de origem indígena na formação do Português do Brasil. Dizemos “algumas” porque além de ser exaustiva a pesquisa, a ocorrência da quantidade de vocábulos não apresenta unanimidade entre alguns autores. Vejamos: o dicionário Aurélio (2010) enumera, para o Português do Brasil, 2.533 verbetes de empréstimos do tupi; o dicionário Michaelis apresenta 3.238; os DICIONÁRIOS PRO DA LÍNGUA PORTUGUESA (Porto Editora, 2005 [versão eletrônica]) de Portugal registram apenas 504 palavras. Gladstone Chaves de Melo (1971, p. 43) aponta que o total de tupinismos seja avaliado em torno de 10 mil através de uma informação pessoal de Artur Neiva; Clóvis Chiaradia registrou no seu Dicionário de Palavras Brasileiras de Origem Indígena (Limiar, 2008) que coletou mais de 30 mil verbetes ligados à fauna, flora, toponímia, folclore, antropologia, culinária, medicina etc. que compreendem os troncos-linguísticos e suas famílias do nosso país, como o Tupi-Guarani (a imensa maioria), Karíb, Aruák, Macro-Jê etc.; e CUNHA (1999, p. 10), no Dicionário histórico das palavras portuguesas de origem tupi, comenta sobre 60 mil, incluindo, contudo, denominações repetidas.     

As relações históricas entre o Português e o Tupi ocorreram desde os primeiros contatos dos europeus com os índios do século XVI. Há quatro acepções abrangentes referentes às línguas indígenas do Brasil: Tupi, Tupinambá, Nheengatu e Línguas Gerais e elas estão relatadas e definidas em Conceitos Fundamentais desse trabalho. Os empréstimos linguísticos ocorreram quando a língua receptora (o Português) não teve nomes em sua língua para o objeto desconhecido, a cultura, os seres vivos que lhes eram completamente estranhos ou para os lugares que os habitantes passaram a conhecer.

O primeiro documento conhecido como a “Certidão de Nascimento” do Brasil, a Carta de Pero Vaz de Caminha, de 1º de maio de 1500 não registra nenhum vocábulo Tupi. Os documentos posteriores, como a Carta del maestre Johan, escrita por Johan (participante da expedição de Cabral) em espanhol com interferências portuguesas (DIAS, VASCONCELLOS e GAMEEIRO 1921-24 II, pp. 100-105; RIBEIRO, 1922; CORTESÃO, 1994, pp. 143-144) e o relatório de 1501, conhecido como Relação do piloto anônimo, publicado em italiano e erradamente atribuído a um português, de nome desconhecido, que também participara na viagem de descoberta (cf. versão italiana BERCHET, 1892, pp. 83-86; RAMUSIO, 1979, pp. 949-956) e a tradução portuguesa (DIAS, VASCONCELLOS e GAMEEIRO 1921-24 II, pp. 106-1117; CORTESÃO, 1994, pp. 145-166) também não registram contato linguístico com os índios tupis. Tampouco os escritos de Américo Vespúcio, como a carta endereçada a Lorenzo di Pierfrancesco de Medici, de 1502, e o relato conhecido como Mundus Novus ¹ dos anos de 1503-1504, contêm vocábulos indígenas. O mesmo constata-se no testemunho francês que ficou conhecido como Relation authentique ² de Binot Paulmier de Gonneville, a partir de Honfleur (1503-1505). 

É apenas num diário de bordo da nau Bretoa, de 1511, que se encontra um documento com indicações pormenorizadas sobre um carregamento, com palavras indígenas. Esse diário foi descoberto por Varnhagen, em 1844, na Torre do Tombo, em Lisboa (TEIXEIRA e PAPAVERO. 2009, p. 187) e é um documento muito importante para se avaliar o significado econômico da futura colônia que surgia. Os corpora desta pesquisa são dos vocábulos o Livro da nau Bretoa ³ (disponível na internet); o Tratado descritivo do Brasil em 1587, de Gabriel Soares de Sousa; o Dicionário histórico das palavras portuguesas de origem tupi, de Geraldo da Cunha que reúne tupinismos a partir de amplo acervo de textos do século XVI até o XX; e, o Projeto Filologia Bandeirante 4 (1996-2000).

Conceitos Fundamentais

A palavra “tupi” designou no século XVI o povo que habitava o litoral de São Vicente, a região de Piratininga e o Alto do Rio Tietê (em São Paulo) e com quem os portugueses estabeleceram relações amigáveis. 

No século XVII o tupi ficou mais associado aos índios recrutados pelos bandeirantes para adentrar o interior do sudeste e do sul do Brasil e outras comunidades de indígenas guaranis na bacia do rio Paraná. Sua definição na tradição brasileira apresenta uma realidade linguística complexa a partir do século XIX. Enquanto no Brasil ele foi reativado pelos intelectuais após a independência do país quando se buscava uma identidade nacional, ainda hoje em algumas regiões do Paraguai, o termo “tupi” carrega o sentido de “matuto”, “inculto”. (GATTI, 1995). 

O tupinambá, a língua dos índios da costa brasileira nos séculos XVI a XVII, empregada na missão jesuítica nesse mesmo período era da região de Santa Catarina e Bahia. Estendeu-se depois ao Maranhão e Pará e entrou na Amazônia no século XVII por causa das migrações contínuas dos tupinambás. Foi nela que se basearam as Línguas Gerais da época colonial, a Língua Brasílica, a Língua Geral Paulista e a Língua Geral Amazônica, extinta do final do século XVIII (RODRIGUES, 1996, p. 57) ⁵. É considerada a língua originária do Brasil que posteriormente (após 1870) foi designada de tupi. 

Foi o poeta e pesquisador brasileiro (de Caxias, Maranhão) Gonçalves Dias (1823-1864) um dos primeiros escritores a projetar o nome tupi em sua poesia romântica. Inclusive, ele fez e publicou em 1858, o Diccionario da Lingua Tupy, chamada Lingua Geral dos Indigenas do Brazil.

O tupinambá é considerado uma das línguas da grande família linguística tupi-guarani (classificação de especialistas, porque o tupi[nambá] e o guarani foram as primeiras línguas documentadas da família e assim serviram como definição).

Aryon Rodrigues assim define “família linguística”:

“as línguas do mundo são classificadas em famílias segundo o critério genético. De acordo com esse critério, uma família linguística é um grupo de línguas para as quais se formula a hipótese de que têm uma origem comum, no sentido de que todas as línguas da família são manifestações diversas, alteradas no correr do tempo, de uma só língua anterior”.

Os nomes “tupi” e “tupinambá” recentemente têm sido empregados para distinguir as duas variedades de língua bem próximas, filiadas à família linguística tupi-guarani.

As Línguas Gerais ocorreram pelo fenômeno da relação dos homens portugueses com as mulheres indígenas. Com o favorecimento dos líderes indígenas às relações com os europeus intencionando firmar alianças estáveis para obterem bens materiais (espelhos, roupas, armas, facas etc.), aos poucos foi crescendo o número de mestiços (mamelucos, isto é, filhos de pais portugueses com mães indígenas), falando a língua da mãe e dos demais parentes, todos estes indígenas, já que do lado paterno dos avós, tios e primos estavam em Portugal e/ou trabalhando. Ademais, quando os mestiços cresciam e seguiam os ofícios dos pais, nem todos aprendiam bem a língua deles e sim apenas falavam normalmente a de suas mães e demais parentes com quem havia convivido.

As Entradas e Bandeiras formam movimentos de exploração de terras com objetivos econômicos (encontrar metais preciosos), e capturar índios para utilizá-los como escravos, realizados pelo interior do Brasil Colônia entre os séculos XVI e XVIII. Enquanto as Entradas eram atividades oficiais, ordenadas pela Coroa Portuguesa e tiveram como ponto de partida o litoral da região Nordeste; as Bandeiras foram expedições particulares, iniciativas dos próprios colonos (bandeirantes), saídas em sua maioria de São Paulo. Foi no interior deste Estado, em Piratininga, que o amálgama das línguas (portuguesa e indígena) ocorreu de forma mais intensa e duradoura. O número de mestiços usando a língua tupi cresceu tanto (um pouco alterada pelo convívio com a portuguesa) que esta difundiu-se e passou a ser denominada Língua Geral Paulista (LGP). Esses mestiços ao se integrarem às expedições e às Bandeiras direcionadas ao interior de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul levaram consigo as duas línguas e passaram a nomear os lugares por onde passavam ora numa, ora noutra. Desse modo foi que as toponímias em Língua Tupi, a Língua Geral, se fixaram em variados lugares onde povos indígenas não estiveram antes, como é o exemplo de Minas Gerais. Uberaba, de ýberába, com o significado de “rio brilhante”; Ipatinga, de ýupátínga “lagoa branca”; e Itajutiba, de itájútýba “lugar de muito ouro” são três exemplos entre tantos outros. Pelo fato de os bandeirantes criarem povoados nos lugares onde chegavam e fixavam-se, as pessoas passaram a utilizar a LGP em concorrência com a Língua Portuguesa. E além do Estado mineiro, o interior paulista, Goiás, Mato Grosso e o norte do Paraná também tiveram a língua portuguesa eivada pelo tupi. 

Wagner Azevedo Pereira nasceu em Nova Iguaçu/RJ – Brasil. Formou-se em Letras, com Pós-graduação (lato sensu) em Língua Portuguesa, cursa Direito, formações na Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Doutor Honoris Causa (OMDDH e APALA-RJ). Tem 36 livros publicados: 21 dicionários, 2 livros de contos, 1 de sonetos e 12 participações em antologias. Colaborou com o site E-Dicionário de Termos Literários (online) com seis verbetes inéditos: EUS, ERÓTEMA, PORANDUBA, PAI-JOÃO, ANÁBASE e CATÁBASE. É 2º Vice-Presidente do IICEM (Instituto Internacional Cultura em Movimento) e colunista da rádio Tropical AM 830, do RJ (www.tropicalam830.com), com o quadro O DICIONÁRIO ABERTO, todo 1º sábado de cada mês às 17 horas (horário de Brasília).

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Notas

¹ O material de Vespúcio se encontra em Pozzi (1984; cf. pp. 75-85, 87-121). Ao contrário do que diz a apresentação de Waldseemüller na cosmographiae Introductio de 1507, Vespúcio empreendeu não quatro, mas somente duas viagens ao Novo Mundo. Os relatos do Brasil se referem à viagem de 1501 (cf.: RAMUSIO. 1978, pp. 657-658).

² Cf. JULIEN, HERVAL e BEAUCHESNE (1946).

³ Livro da nau Bretoa (1511) — Roteiro de Duarte Fernandes, e mais documentos officiaes, relativos á viagem da Náo Bretoa até Cabo Frio em 1511. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro 24, 1861, pp. 96-111. [e “Llyuro da náoo bertoa que vay pera Terra do brazyll de que som armadores bertolameu marchone e benadyto morelle e fernã de lloronha e Francisco miz que partio deste porto de Lix.ª s xxij de feureiro de 511” in DIAS, Carlos Malheiro; VASCONCELLOS, Ernesto de; GAMEEIRO, Roque (Org.). História da colonização portuguesa do Brasil. Edição monumental comemorativa do primeiro centenário da independência do Brasil. 3 v. Porto: Litografia Nacional, 1921-24, pp. 343-347].

⁴ Projeto Filologia Bandeirante (1996-2000) – projeto coordenado pelo professor Heitor Megale. É um projeto temático de equipe de coleta de material linguístico, acompanhado de estudos para identificação, análise tabulação de traços dos aspectos fonológico, morfológico, sintático e semântico pertencentes a uma ou mais fases da Língua Portuguesa, provavelmente preservados nos locais das trilhas dos bandeirantes paulistas do final do século XVII ao longo do séc. XVIII. Geograficamente a pesquisa cobriu os territórios dos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. O objetivo do projeto foi de documentar e descrever aspectos linguísticos do Português nestas regiões, para fornecer aos pesquisadores um corpus cientificamente preparado para tal estudo. (COHEN et al., 1997, pp. 79-94 in NOLL e DIETRICH. 2010). Disponível em: < http://www.bv.fapesp.br/pt/auxilios/1263/filologia-bandeirante-projeto-tematico-de-equipe-em-filologia-e-linguistica-portuguesa/ > Acesso em 02/03/2025.   

⁵ Em 1757, a utilização do tupi foi proibida por uma Provisão Real. Tal medida foi possível porque, a essa altura, o tupi já estava sendo suplantado pelo português, em virtude da chegada de muitos imigrantes da metrópole. Com a expulsão dos jesuítas em 1759, o português fixou-se definitivamente como o idioma do Brasil. (A Língua Portuguesa. Disponível em: < http://www.linguaportuguesa.ufrn.br/pt_3.3.a.php >. Acesso em 04/03/2025).

Abreviaturas

cf. = confira

et al. = et alii (e outros)

in = em

Org. = Organização  

v. = volumes

pp. = páginas

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