O que há dentro da sua xícara?

Por Renata Moragas

O que tem na sua xícara é o título de um texto muito interessante e reflexivo que vez por outra circula pela internet. Sua autoria? Desconhecida. Na minha imaginação, a autora é uma filósofa ou uma sábia mulher com quem eu adoraria tomar um chá e prosear.

O texto conta que alguém segurava uma xícara de café quando outro alguém esbarrou em seu braço, derramando o café. E pergunta: por que o café derramou?

A maioria de nós, historicamente bem trabalhados na culpa e pouco habilitados na autorresponsabilidade, certamente responderia: porque esbarraram no braço, oras!

Acontece que o foco do texto é a causa e não o sintoma, é o conteúdo e não a forma, é o interno e não o externo. Portanto, derramou café porque café era o que havia na xícara. Se houvesse chá, chá derramaria. Derramaria o que lá houvesse. E não é piada sem graça ou pegadinha boba. E sim uma perspectiva, talvez menos usual, que abre espaço para uma bela e profunda reflexão.

Estar na vida é relacionar-se e relacionar-se é ser esbarrado a quase todo momento. É relativamente tranquilo conter o que se tem dentro. Até ser esbarrado! O esbarrão pode ser leve nem sempre é brusco. Seja como for, sempre vai fazer transbordar o que tiver do lado de dentro.

Por que o café derramou? Por que você sorriu para sua filha quando ela terminou uma apresentação na escola? Por que você levou alimento para um morador de rua? Por que você agradeceu a pessoa que te apoiou num momento de dificuldade? Por que você xingou o homem que atravessou o sinal amarelo? Por que você chorou com a morte de alguém muito querido?

 

Você sorriu para sua filha, porque satisfação foi o que transbordou de você e não porque ela mereceu um sorriso por ter feito uma apresentação comovente. Você levou alimento para um morador de rua, porque caridade transbordou de você e não porque ele te pediu comida. Você agradeceu a pessoa que te apoiou, porque gratidão transbordou de você. Xingou o homem que atravessou o sinal amarelo, porque indignação transbordou de você. Chorou, porque a tristeza transbordou de você.

Os exemplos podem ser muitos e variados, os transbordamentos também. Porém, perceba que o acontecimento ou o comportamento do outro não determinam o que você sente, mas certamente, o que você sente determina como você reage.

O que vai dentro, todo nosso sentir, nasce de nossa percepção das coisas. Nossa percepção das coisas comanda nosso comportamento. Ela é parceira das crenças. São as crenças que interpretam os estímulos que chegam para nossa percepção, são elas que estão por trás de nossas ações.

Crenças nascem das nossas experiências de vida, das coisas que falaram para nós e de nós, dos valores da nossa família, dos costumes culturais de onde nascemos e crescemos, das memórias da nossa espécie. Elas são fontes abundantes de filtros que nos impedem de ver as coisas como elas são, fazendo-nos percebê-las como nós somos, como diria a escritora francesa Anais Nin. Uma visão embasada por véus.

Se desejamos saber o que vai dentro da nossa xícara, se pretendemos entender porque sentimos o que sentimos e nos apropriar de comportamentos mais assertivos e mais conscientes, penso que nossas crenças devem ser observadas, conhecidas e constantemente questionadas.

Aprendemos desde muito cedo a obedecer sem questionar, a nos comportarmos conforme as regras de punição e recompensa, etc. e tal. É mais fácil sustentar que um culpado derramou meu café do que perceber que minha irritação é porque na verdade eu nem gosto de café e, portanto, nem queria estar segurando aquela xícara.

 

Os eventos vêm para nos permitir questionar nossas próprias crenças e nosso comportamento. Nos afastamos dessa possibilidade quando colocamos o foco no acontecimento, no externo, quando ele deveria estar no conteúdo, no que vai dentro, no que se sente, no que se acredita.

Como nos sentimos pode vir a ser fruto de uma escolha consciente, quando ressignificamos crenças limitantes, substituindo-as por uma percepção mais clara e coerente com a realidade e com nossa compassividade originária, como diria Marshall Rosenberg, autor da Comunicação não-violenta.

Isso me faz lembrar uma história indígena que muito aprecio. Aquela em que o avô fala para o neto sobre os dois lobos que parecem viver dentro dele. Lembra? Você conhece? Um deles é bom e não faz mal, diz o avô. Vive em harmonia com todos ao seu redor e não se ofende. Só luta quando é preciso fazê-lo, e de maneira reta. O outro lobo é cheio de raiva. A coisa mais insignificante é capaz de provocar nele um terrível acesso de raiva. Ele briga com todos o tempo todo, sem nenhum motivo. Sua raiva e ódio são muito grandes e por isso, ele não mede as consequências de seus atos. É uma raiva inútil, pois sua raiva não irá mudar nada.

 

O avô conta que às vezes, é difícil conviver com estes dois lobos dentro dele, pois ambos tentam dominar seu espírito.

Quando o neto pergunta qual dos lobos vence, o avô sorri, olha intensamente nos seus olhos e responde: aquele que eu alimento.

Já parou para perceber o que você vem nutrindo em seu interior?

Você pode ser o autor da sua história, quando entende o que sente, cultiva bons sentimentos, reconhece, questiona e ressignifica suas crenças, tira os véus que confundem sua percepção, quando escolhe conscientemente o que vai transbordar de você.

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