Por Arnaldo Lyrio
No Rio dos anos 1960, a minha rua era um palco vibrante da vida na vizinhança. Era onde se disputavam partidas épicas, sem registros no Canal 100, nem comentários dos craques da época. O gol? Duas latas, um portão de garagem, ou a distância entre as mochilas da escola. A bola? Qualquer objeto arredondado, uma chapinha ou um jornal enrolado em barbante. Ali, o futebol, a nossa “pelada” reinava soberana. Tudo aconteceu antes do asfalto dominar e dos carros nos excluírem.
Naqueles tempos, as ruas de paralelepípedos diminuíam a velocidade dos carros, o que aumentava a segurança da peleja. Por outro lado, de pés descalços ou de chinelos puídos, os atletas conheciam cada pedra, cada ressalto do piso.
A topografia do terreno influenciava o quique da bola e passava a integrar as estratégias do jogo. Era assim também nas ruas rampeadas: meio tempo rua acima, meio tempo rua abaixo. Quando tinha muita gente, a turma que esperava sua vez de brincar apitava o jogo e marcava o tempo e o placar: dez minutos ou dois gols por partida, quem perdia saía.
O cheiro de tempero vindo das cozinhas anunciava o almoço, a última rodada e todos rumavam para suas respectivas casas, claudicantes, sem o tampão do dedo, perdido em alguma saliência do campo empedrado. Era também o momento de avaliar o nosso embrulho de bola. A tarde prometia revanches e mais diversão.
Se durante o dia a bola era a protagonista, à noite, a rua se abria para outro tipo de espetáculo: a vida em comunidade. Aquele espaço antes dominado pelo zunir das bolas ameaçando vidraças, se transformava numa extensão das casas, um palco de encontros e conversas, sob a luz tênue dos postes da época. Pouquíssimos eram os carros que ousavam quebrar essa magia.
O progresso, no entanto, cobrou um preço inestimável: a rua, antes cheia de vida e convivência, foi pouco a pouco cedendo lugar aos automóveis, transformando a cidade acolhedora numa impessoal e barulhenta “Carrópolis”. Onde antes a posse da bola era nosso ingênuo objetivo, agora impera o asfalto. E o carro passou a ser a ambição egoística e individualista de condutores que se enredam nos tecidos ilusórios do status e do falso poder de vencer o tempo através da velocidade.”
As lembranças tão vívidas de um cotidiano anterior ao carro e às redes sociais, permitiriam, quem sabe, novos rumos para a reconquista de espaços de convivência, humanizando a nossa percepção de progresso. Costurar o melhor de ontem com o melhor de hoje e produzir uma cidade com escala e espaço apropriados à pele, ao pulmão e às pernas, ao invés da lataria, da descarga e dos pneus. A partir do ser humano e para o ser humano. Vamos conversar sobre isso?
Diante dessas memórias de um cotidiano mais humano e conectado, e as novas rotinas impostas pela era do carro e da internet, somos convidados a refletir. Não seria tempo, então, de se redesenhar a cidade, não para a lataria e a descarga, mas para a pele, o pulmão e as pernas? O resgate desses espaços de convivência não é apenas nostalgia; é um passo fundamental para humanizar nossa percepção de progresso e construir um Rio de Janeiro com escala e espaço verdadeiramente apropriados ao ser humano. Vamos conversar sobre isso e, quem sabe, costurar o melhor de ontem com o melhor de hoje, tecendo assim cidades mais humanas, afeitas aos encontros e à nossa convivência.

Arnaldo Lyrio é Arquiteto e Urbanista com Doutorado em Design e Mestrado em Arquitetura e Urbanismo, especialista em Design, Acessibilidade e Mobilidade Urbana. MBA em Administração de Marketing com ênfase em Serviços. Conselheiro Titular e Coordenador da Comissão de Acessibilidade e Mobilidade Urbana do CAU RJ; Conselheiro Titular do COMDEF-Rio. Arquiteto da Prefeitura do Rio de Janeiro.
Saiba mais: Facebook * Instagram * Youtube * LinkedIn


