Por Taina Volcov
Habitar é mais do que morar. É criar raízes, estabelecer laços, abraçar e ser abraçado, sentir a presença e se fazer presente. É criar memórias e ser memória!
Os ambientes eram singelos, mas tudo tinha um significado especial: uma história, um propósito, um uso específico. Não existiam supérfluos para a maioria das pessoas por conta de sua jornada, onde o pouco que tinham se multiplicava e era dividido entre todos.
E, de repente, o morar se tornou complexo. Ou será que nós o complicamos, enquanto deveríamos facilitar?
As revoluções foram transformando a sociedade e a forma de morar, até chegarmos ao presente, imersos entre tecnologias variadas.
Tecnologia: Sim ou talvez?
Com os avanços tecnológicos, qualquer ideia vira aplicativo ou oportunidade de negócio. A tecnologia bem aplicada, pode trazer benefícios, como realizar tarefas operacionais e repetitivas, nos recordar dos nossos compromissos diários e, indiretamente, auxilia a manter o nosso bem mais precioso — o tempo — para atividades fundamentais, como, por exemplo, os relacionamentos interpessoais.
Eu recordo do desenho “Os Jetsons”, onde tudo era mágico aos olhos: robôs aspiradores, telas para falar (nossas atuais videochamadas), relógios pelos quais podiam se comunicar (atuais relógios inteligentes), filtros para videochamadas, alimentos impressos, casas inteligentes com assistentes virtuais e os carros voadores (que com certeza devem estar em desenvolvimento em algum lugar neste instante).
Mal sabia eu que viveria esta realidade anos depois, em cores tão vivas! E que este futuro feito de tecnologia, que muitos acreditaram que um dia existiria, traria facilidades com seus algoritmos e sensores.
As revoluções, ao longo da história, trouxeram, junto com as dores, novas cores e o progresso das sociedades. E não está sendo diferente com a revolução 4.0 / era da sociedade 5.0, onde se busca pelo equilíbrio entre a eficiência tecnológica, a sustentabilidade e o bem-estar humano.
Cidades como organismos
As cidades podem adoecer seus moradores ou curar. Adoecem quando perdem o senso de comunidade, quando esquecem a escala humana, quando substituem árvores por concreto e relações por telas. E curam quando retornam com o som da água, o canto dos pássaros, o ritmo das pessoas.
A cidade regenerativa é aquela que devolve vitalidade ao que estava silenciado. Ela nasce do encontro entre tecnologia e natureza, entre dados e intuição, entre o saber técnico e o afeto.
Porque inteligência verdadeira é sensibilidade — é entender que o sistema mais avançado é aquele que promove o bem-estar coletivo. As cidades não podem ser reduzidas a um amontoado de tecnologias que agilizem deslocamentos e facilitem tarefas: elas precisam cultivar vínculos.
É preciso criar ambientes construídos — internos e externos — saudáveis, que convidem ao encontro, à convivência, à qualidade de vida e à melhoria das relações interpessoais que compõem as sociedades.
Habitar o futuro é um ato de amor
Talvez o futuro não esteja adiante, mas no retorno: no reencontro com o essencial, na busca pelo cuidar e criar bases saudáveis, locais onde as necessidades básicas são atendidas, garantindo a qualidade de vida de seus ocupantes.
Quando reconhecemos a casa como extensão do corpo e o corpo como extensão da Terra, compreendemos que cuidar do espaço é cuidar da própria vida.
Arquitetos, urbanistas e todos os que constroem passam, então, a ser jardineiros do futuro — cultivando ambientes que nutrem e inspiram. E cada casa saudável, cada rua viva, cada gesto de cuidado se transforma em semente de regeneração.
Habitar o futuro é, enfim, reaprender a sentir o mundo. Não apenas projetá-lo, mas permitir que ele também nos transforme.
Nenhuma cidade será realmente inteligente se não for capaz de cuidar da vida, em todas as suas formas, em todos os seus ritmos.
Feliz em saber que existe, hoje, a Abayomi Academy, que junta ambos os lados — Cidades Inteligentes e Cidadãos Felizes — e atua nessa conscientização.

Taina Volcov é arquiteta e urbanista, apaixonada por imaginar e desenhar espaços desde a infância. Aos 11 anos, já criava cenas e conversas em vídeo-chamadas — em plena década de 1990. Aos 17, foi pioneira em sua família ao ingressar na universidade, realizando o sonho de infância de transformar rabiscos em projetos reais. Atua desde 2011 na área de Engenharia Diagnóstica, cuidando da saúde das edificações e investigando como os ambientes construídos afetam a saúde das pessoas e das cidades. Seu olhar atento une técnica e sensibilidade, guiando reflexões sobre bem-estar urbano. Na Coluna Saúde e Bem-Estar, compartilha sua vivência com leitores em português, buscando inspirar novas formas de viver, habitar e construir juntos um futuro mais saudável e feliz.
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