Economia Azul: um mergulho mais profundo

Por Beto Marcelino, presidente do conselho do iCities

Em meu texto anterior, fiz um convite para um mergulho no conceito de economia azul como uma promessa de futuro sustentável para o Brasil. Futuro esse que começa agora, no jeito como produzimos, consumimos, regulamos e protegemos nossos oceanos. Hoje eu quero mergulhar mais fundo nesses conceitos porque, para além do encanto (necessário) de imaginar um país oceânico próspero, existe uma pergunta que muda tudo: a economia azul é um conceito inspirador ou um modelo econômico que pode  movimentar milhões e impactar a vida de milhares de pessoas?

A resposta, para mim, é clara: a economia azul já é, simultaneamente, inspiração e motor econômico. Ela inspira porque reposiciona o oceano como parte fundamental da nossa economia, e não apenas como uma paisagem linda ou um lugar onde nos banhamos em momentos de lazer. É motor porque já movimenta cadeias produtivas inteiras, cria empregos, orienta investimentos e acelera inovações em energia, logística, turismo, pesca, aquicultura, biotecnologia e serviços ambientais. Quando falamos de um Brasil oceânico, falamos também de pessoas: do trabalhador que vive do mar, do pesquisador que transforma conhecimento em dados e soluções inteligentes, do empreendedor que encontra valor nas águas e em seus frutos, e do gestor público que entende que desenvolvimento e conservação precisam caminhar sempre juntos.

Mas há um detalhe decisivo: modelos econômicos só se tornam sustentáveis quando viram agenda coletiva. E é por isso que a promoção de eventos com essa temática é tão estratégica. Encontros sobre a economia do mar não são “cerimônias”, são ambientes de convergência. É onde a comunidade científica, os governos, as empresas, os investidores, as universidades e a sociedade civil sentam à mesma mesa para debater ideias e transformá-las em projetos, parcerias, políticas públicas e em oportunidades concretas. É ali que as prioridades se alinham e onde o discurso ganha ainda mais força para sair do papel e ganhar vida.

Eu gosto de dizer que esses encontros são sementes. A semente é pequenina e não faz barulho quando cai na terra, mas carrega o futuro inteiro dentro dela. Esses eventos ajudam a disseminar aprendizado: cidades e organizações compartilham entre si o que funcionou, o que falhou, o que tem potencial de ser replicado e o que deve ser evitado. No fim, a semente vira um ecossistema. Este ano, durante o Tomorrow Blue Economy, que aconteceu em Niterói no fim de novembro, pudemos ver muitos jovens presentes nas palestras e rodas de conversa, e isso diz muito sobre o futuro dos oceanos, afinal, quanto antes a juventude estiver presente nos debates sobre o futuro, mais cedo ela exercerá seu protagonismo nas soluções. 

E existe um impacto que as cidades-sede desses eventos sentem de forma muito concreta: o legado. Um encontro com foco na economia azul deixa rastros positivos que permanecem depois que a exposição e os debates se encerram. Conexões institucionais, projetos estruturantes e escaláveis em andamento, capacitações, visibilidade internacional e um senso de identidade ligado ao mar perduram e, junto disso, cresce também a percepção da orla como espaço de vida: um território onde saúde, bem-estar e pertencimento se encontram com novas oportunidades. Quando o mar tem destaque na agenda da cidade, a orla fortalece seu papel como plataforma para mobilidade ativa, lazer e eventos que movimentam a economia local: de corridas e caminhadas à beira-mar a travessias aquáticas, provas de remo, shows de música e arte e outras experiências que conectam pessoas ao oceano de forma positiva. A cidade passa a ser reconhecida como polo de inovação e sustentabilidade, atrai talentos, fortalece seu turismo e impulsiona iniciativas de infraestrutura, educação e governança costeira. É uma transformação que começa no calendário, mas termina no planejamento urbano, na economia local e na agenda comunitária.

Nesse sentido, a agenda da Década do Oceano da UNESCO é um exemplo poderoso de como alinhar ambição com ação. A iniciativa concentra os esforços globais relacionados à ciência do oceano, sempre os direcionando para que sejam aplicados a desafios reais, desde adaptação climática à biodiversidade, de poluição à segurança alimentar. Quando um evento se conecta a essa agenda, ele ganha ainda mais relevância. Não se trata apenas de “falar sobre a economia do oceano”, mas de contribuir para um movimento global que estimula cooperação, inovação e soluções inteligentes mensuráveis. E é nesse ponto que o Tomorrow Blue Economy Niterói também está inserido: como parte de uma mobilização maior, que coloca o Brasil no mapa das respostas contemporâneas para o futuro dos oceanos, fazendo parte da agenda oficial da Década do Oceano.

O que eu gostaria de defender também é uma postura de continuidade: eventos não podem ser isolados. Cada edição deve ampliar a rede de conexões, aprofundar compromissos, acompanhar resultados e gerar novos pactos. Quando uma cidade abriga um encontro dessa natureza, ela também assume o seu papel de laboratório vivo. Niterói se tornou um território observado, onde o que se discutiu tem potencial para virar protótipo, projeto-piloto, política pública, programa e prática. 

Se quisermos responder com honestidade à pergunta que abre meu texto de hoje: se a economia azul é inspiração ou modelo econômico, precisamos entender que há espaço para serem os dois. O Brasil tem costa, biodiversidade, conhecimento, pesquisadores superqualificados, empreendedores e uma oportunidade histórica de estar entre os líderes. Meu desejo é que a intenção e a teoria se transformem em ação e que o movimento se torne realidade, sempre em busca de uma economia mais sustentável, humana e inteligente, que coexista com os oceanos numa relação de respeito e cooperação mútua. 

Beto Marcelino é presidente do Conselho do Grupo iCities e sócio-fundador da holding brasileira referência no ecossistema de inovação urbana e cidades inteligentes. Agente pioneiro da temática, foi um dos relatores da Carta Brasileira de Cidades Inteligentes, iniciativa do Ministério das Cidades, e também integrou o programa Cidades 4.0, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), contribuindo para a construção da Política Nacional de Cidades Inteligentes.

Formado em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)  com especialização em cidades inteligentes pelo Smart City Expert e MBA em Marketing pela FAE Business School, é embaixador da Fira Barcelona no Brasil, fortalecendo a conexão entre eventos globais e o contexto urbano brasileiro.

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