Desenvolvimento Cerebral e o Movimento

Por Arnaldo Lyrio

Será que existe ligação entre os movimentos do nosso corpo e o desenvolvimento do nosso cérebro? Esta é a conexão que o neurocientista Miguel Nicolelis propõe em uma recente e instigante conversa com o apresentador Sérgio Sacani11. Trata-se de uma mudança de perspectiva nos estudos sobre o desenvolvimento do nosso cérebro, tendo como foco o Movimento e, por extensão, a forma como concebemos o ambiente que nos cerca.

Um Novo Frame para Entender o Córtex

A afirmação de Nicolelis é categórica: o movimento deve ser considerado o novo frame, a nova lente através da qual enxergamos o desenvolvimento do córtex cerebral. Essa declaração se baseia em análises de seus estudos mais recentes, evidenciadas nas observações sobre indivíduos privados da capacidade de se mover. Ao analisar o córtex dessas pessoas, o neurocientista percebeu que há uma espécie de atrofia nessa região crucial do cérebro. Essa constatação sugere uma dependência muito mais forte do que se imaginava entre a atividade motora e a saúde e desenvolvimento do nosso centro de comando cognitivo.

Movimento: A Essência da Sobrevivência e da Evolução

A linha de investigação de Nicolelis nos conduz a uma reflexão sobre a nossa história evolutiva. Para a nossa espécie, o movimento sempre foi sinônimo de sobrevivência. As manobras necessárias para escapar de um predador, a busca por alimento, a construção de abrigos e ferramentas são exemplos disso. Todas essas habilidades motoras não são apenas ações físicas isoladas, mas sim as bases que podem ter moldado o nosso cérebro ao longo do tempo.

A capacidade de interação com o ambiente parece ser um motor essencial para o desenvolvimento das complexas redes neurais que nos tornam quem somos. A privação desse movimento, como apontam os estudos, pode ter um impacto direto na arquitetura e na funcionalidade do nosso córtex.

Implicações e o Futuro da Neurociência

A descoberta de Nicolelis abre novas e fascinantes avenidas para a pesquisa em neurociência. Compreender a profundidade dessa relação entre movimento e desenvolvimento cerebral pode ter implicações significativas em diversas áreas, desde a reabilitação de pacientes com limitações motoras até a otimização do aprendizado e do desenvolvimento infantil. Outra questão pode ser a relação entre o estilo de vida cada vez mais sedentário nas sociedades modernas e o seu impacto na nossa evolução como seres humanos. Tudo nos leva a reforçar a ideia de que não podemos mais separar corpo e mente. O movimento passa a ser um elemento intrínseco e fundamental para a própria formação e manutenção da nossa capacidade cognitiva. 

A Evolução dos Abrigos Humanos e a Centralidade do Movimento:

O texto de Miguel Nicolelis oferece também uma oportunidade para repensarmos a evolução dos abrigos humanos e os desafios contemporâneos para urbanistas e arquitetos.

Desde os primórdios, a busca por abrigo esteve intrinsecamente ligada à necessidade de segurança e sobrevivência, ambas fortemente dependentes da capacidade de movimento.

Os primeiros abrigos ofereciam proteção passiva contra predadores e intempéries. No entanto, a própria escolha e acesso a esses locais exigiam a capacidade de se mover, explorar e, por vezes, lutar por eles.

À medida que evoluímos e desenvolvemos novas habilidades, construímos abrigos mais elaborados com materiais disponíveis. A obtenção desses materiais, a construção e organização do espaço interno já envolviam diferentes tipos de movimentos e atividades motoras.

Com a sedentarização e o desenvolvimento da agricultura, os abrigos tornaram-se mais permanentes e agrupados, formando aldeias. A organização dessas comunidades permitia movimentos coletivos para defesa, trabalho e interação social, elementos cruciais para o desenvolvimento cognitivo e social.

O surgimento das cidades trouxe uma complexidade espacial sem precedentes. A necessidade de se locomover dentro desses ambientes, de interagir com diferentes espaços e pessoas, vem impulsionando ainda mais o desenvolvimento cognitivo e motor. O próprio desenho das cidades, com suas ruas, praças e edifícios, tem moldado diversos padrões de movimento e interação com o ambiente construído.

Novos Desafios para Urbanistas e Arquitetos a partir do foco no Movimento

Num momento em que a sustentabilidade e a inclusão social são presença constante em programas e debates da mídia, devemos refletir sobre as oportunidades e desdobramentos possíveis para a concepção de edificações e cidades. 

Mobilidade e Acessibilidade, então, passam a ser conceitos basilares na compreensão da usabilidade dos espaços como norteadora do nosso desenvolvimento como espécies.

  1. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=C-_fNNUnIGk. Acesso em abr2025 ↩︎

Arnaldo Lyrio é Arquiteto e Urbanista com Doutorado em Design e Mestrado em Arquitetura e Urbanismo, especialista em Design, Acessibilidade e Mobilidade Urbana. MBA em Administração de Marketing com ênfase em Serviços. Conselheiro Titular e Coordenador da Comissão de Acessibilidade e Mobilidade Urbana do CAU RJ; Conselheiro Titular do COMDEF-Rio. Arquiteto da Prefeitura do Rio de Janeiro.


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