Simone Marques, fundadora da Green and Blue Eco
Care é nossa cidadã consciente do mês de setembro.
Por Renata Ross
1- Quem é Simone Marques?
Sou uma ambientalista apaixonada por nossa Mãe Natureza. Tive o privilégio de crescer
próximo a nossa natureza, com horta, árvores frutíferas e flores em casa, e sempre indo a
áreas rurais. Ao perceber a grande desconexão de muitas pessoas com nosso próprio meio
ambiente, resolvi me dedicar a esta causa essencial para nossa sobrevivência e contribuir para
ter mais vida e verde na selva de pedra.
2- O que te trouxe à New York?
Sou de São Paulo-SP e depois de vários episódios de assaltos, em que inclusive quebrei o pé em
um deles, resolvi fazer esta mudança com o apoio de amigos que moravam aqui. Além disso,
sempre me senti muito conectada a Nova York, por tudo o que oferece. Povos de todo o mundo
convivendo pacificamente e com acesso à arte são grandes atrativos para uma pessoa curiosa
como eu.
3- Como surgiu a ideia de criar a Green and Blue Eco Care e o que exatamente vocês fazem
na Big Apple?
Há 8 anos eu estava com muita vontade de plantar, mas não tinha nem uma sacada no
apartamento. Então vi que em frente ao meu prédio tinha um canteiro vazio e resolvi colocar
sementes de girassol ali, pra ajudar as nossas abelhas e embelezar a minha rua. Alguns
vizinhos diziam que eu estava perdendo meu tempo, que ninguém ia respeitar o espaço, mas
outros agradeciam e me cumprimentavam.
As crianças adoravam plantar e regar nosso “Guerrilla Garden” (jardins em espaços públicos). Resolvi escutar os otimistas e foi assim que aprendi mais sobre resiliência, comunidade e a própria natureza, já que percebi a quantidade imensa de abelhas e borboletas que estavam usufruindo do néctar e pólen disponíveis naquele pequeno jardim. Isso me incentivou a continuar e expandir. Procurei saber quem cuidava das nossas árvores e descobri que o NYC Parks oferece treinamento através do programa
chamado Super Steward e então comecei a organizar eventos para cuidar das árvores e limpar
as ruas. Atualmente oferecemos vários programas e estamos sempre expandindo. Temos
jardins com plantas nativas, organizamos eventos de cuidado das árvores urbanas, limpeza
comunitária, excursões a parques para educação ambiental com relação a plantas, água,
planejamento urbano, e criamos hortas e jardins em telhado verde, entre outros. Nossos
voluntários são moradores locais, estudantes e membros de diferentes organizações como a
dos Escoteiros.
4- Como é a aceitação do seu trabalho, enquanto imigrante, pela comunidade que você
atende?
Já percebi que algumas pessoas e grupos são fechados e pouco interessados em colaboração,
mas eu não ligo e sigo em frente. A gente sempre acha nossa tribo. É só procurar e encontrar
as pessoas que se identifiquem com você e seus valores.
5 – Conte-nos de experiências marcantes durante sua trajetória.
Muitas, mas vou mencionar o caso da Sra. Luiza, uma vizinha de 100 anos. Antes de se mudar,
a filha dela me agradeceu por plantar aqueles girassóis que ficavam bem na frente da janela
dela. Eu não sabia, mas ela estava acompanhando tudo o que fazíamos e isso a deixava muito
feliz. Eu criei o jardim pensando nas abelhas, mas os benefícios foram muito além disso, tanto
pra mim como pra minha comunidade. Também quando estamos em nossos jardins muitas
pessoas passam pra agradecer pelo nosso trabalho voluntário. Uma mulher me contou
emocionada como os girassóis lembravam da mãe dela, já falecida. Outra mulher, enfermeira,
em um hospital psiquiátrico disse que a melhor parte do dia dela era passar pelos nossos
jardins. Então, a gente nunca sabe quem também está se beneficiando de um simples jardim.
Além disso, gosto de saber que estou abrindo mentes através de nossas atividades com
estudantes e outros voluntários. Muitos nunca tinham usado ferramentas ou mesmo plantado algo, ou tinham uma ideia equivocada sobre a importância de conservação e regeneração de nossos ecossistemas e das ‘profissões verdes’.
Outra experiência marcante foi ser entrevistada para o livro Get Guerrilla Gardening, de Ellen
Miles, que reuniu projetos de diversas partes do mundo e criou um guia para que todos possam
começar seus jardins em espaços públicos.
6 – O que você pretende alcançar nos próximos anos aqui ou no Brasil?
Quero expandir nossas atividades em Nova York e trabalhar com mais escolas. Cada vez que
vou ao Brasil eu faço limpeza comunitária e participo de eventos relacionados à
sustentabilidade, mas quero fazer mais também, como por exemplo trabalhar com Secretarias
de Meio Ambiente para fazer um planejamento urbano com relação às árvores das calçadas.
Atualmente, esta é uma responsabilidade dos donos das propriedades que plantam o que querem (geralmente espécies de outros continentes, não adequadas à calçada, etc.).
Realmente todas as cidades precisam de um planejamento urbano verde que beneficie a
população e toda a biodiversidade local. Em Nova York já temos isso e se pode ser feito aqui,
pode ser feito em qualquer parte do mundo. Nós fazemos parte da coalizão Forest For All que reúne várias ONGs ambientais e conseguimos aprovar duas novas leis municipais que
garantem cobertura arbórea de 30% do território da cidade. Este é o mínimo que uma cidade
deve ter para garantir qualidade de vida para todos. Os benefícios das árvores urbanas são
muitos: valorização do imóvel, purificação do ar, controle da temperatura, redução de barulho,
7- Que mensagem você pode deixar para nossos leitores?
Comece um jardim hoje mesmo, com plantas nativas da sua região e observe os pequenos e
grandes milagres ordinários que acontecem todos os dias e passam despercebidos. Mesmo um
pequeno jardim tem um grande impacto para quem o cria, quem o observa e para os nossos
animais que dependem dele para sua sobrevivência.
Converse com seus vizinhos e/ou
junte-se a grupos organizados (igreja, escola, Rotary, sua empresa, etc) e faça ações
comunitárias. Leve as crianças e adolescentes com você. Muitas lições de vida e muitas profissões começam com experiências oferecidas através do voluntariado. Não podemos
resolver todos os problemas do mundo, mas podemos fazer nossa parte em nossa
propriedade, bairro e cidade.

Renata Ross: Mulher, mãe, professora e escritora. Formada em Letras com Pós-graduação em Língua Inglesa. Membro da Academia Internacional de Literatura Brasileira. Autora de Fragmentos de um coração, S.O.S. Educação Infantil (Dicas de professor para professor), Arvorida, Arborling, De coração para coração e Tainha, o menino pescador e outras histórias. Brasileira vivendo nos Estados Unidos. Amo literatura, artes, música e natureza. Caminho com o propósito de promover educação cognitiva, emocional e ambiental.
Conheça mais sobre Renata: Instagram


