Por Renata Moragas
Será que existe uma fórmula de Bem-viver? Será que alguém que vive uma boa vida tem uma boa dica para dar? Tem receita para isso? Na verdade, o que é uma boa vida? Pesquisadores de Harvard, acreditando que uma boa vida é sinônimo de saúde física e mental, esta última entendida como uma experiência mais ou menos constante de felicidade, decidiram estudar quais seriam os requisitos necessários para viver uma boa vida.
Imaginando que não seria possível obter dados reais apenas colhendo experiências de pessoas com décadas de vida, pois suas memórias poderiam comprometer a fidedignidade de seus relatos, além de poderem vir contidas de uma dose significativa de imaginação, decidiram iniciar um estudo longitudinal, onde acompanhariam jovens por toda suas vidas.
Para dar início a essa jornada iniciada no ano de 1938 e viva até hoje, atualmente na quarta geração de pesquisadores, foram selecionados pouco mais de 700 estudantes universitários ou em idade universitária. Anualmente, todos os participantes realizaram exames físicos e responderam questionários sobre diversos aspectos de suas vidas. Aproximadamente 60 deles, ainda vivos, ainda seguem este protocolo, e a pesquisa segue ampliada. No questionário inicial da pesquisa havia uma pergunta sobre seus objetivos de vida. As respostas a essa questão indicavam a conquista de dinheiro e/ou fama como a chave que lhes garantiria uma boa vida. Estes, conquistados com trabalho árduo. Entender se dinheiro, fama e trabalho árduo trariam de fato saúde e felicidade para a vida dos participantes foi o intento dos pesquisadores.
Antes de prosseguir com as revelações deste experimento, permita-me instigar algumas provocações filosóficas para, aproveitando a pesquisa, aprofundar nossa reflexão. Será que essas repostas que olham para estrada da vida como busca incessante de dinheiro e fama por meio do trabalho árduo é exclusiva desses estudantes participantes ou está no inconsciente coletivo? Será que não sustentamos essas ideias de sucesso, tendo por detrás delas algumas sombras sociais perpetuadas? Será que não somos educados para pensar nesse ‘caminho direto’, onde a matemática do trabalho árduo nos leva as ‘importantes’ conquistas de fama e dinheiro, que aparentemente vão nos garantir saúde e felicidade? Isso vem se mostrando real nas nossas vidas? Ou será que nem pensamos em saúde e felicidade quando planejamos nossas vidas? Epa! Será que planejamos nossas vidas ou seguimos um protocolo social sem questionarmos? Será que esta ideia coletiva de felicidade atrelada à conquista de fama e dinheiro, e de que trabalho tem que ser árduo, duro, não prazeroso, precisa passar por uma revisão?
Vamos ver se a pesquisa nos fornece alguma dica.
Os dados compilados em décadas de estudos revelaram e continuam a revelar que o que garante saúde física e felicidade não são as conquistas materiais ou a fama. Os indivíduos que se mostraram mais saudáveis, mais longevos e que se consideravam mais felizes foram aqueles que durante a vida cultivaram boas relações. Não os que enriqueceram ou ficaram famosos (dentre eles, um se tornou presidente dos EUA).
O estudo nos mostra que as pessoas que tem bons relacionamentos em família são mais saudáveis e felizes. As pessoas que tem amigos são mais saudáveis e mais felizes. As pessoas que se relacionam com sua comunidade são mais saudáveis e felizes. Colegas de trabalho transformados em companheiros de jornada deixam o trabalho mais prazeroso e nos tornam mais saudáveis e felizes.

Porém, tão importante quanto a constatação de que as relações humanas são vitais para nossa saúde física e mental, foram outras observações que nos apontam o impacto que as relações têm em nós.
Pessoas que vivem por longo tempo a experiência da solidão tem uma queda brusca em sua saúde geral a partir da meia-idade.
Relacionamentos afetivos conflituosos são mais nocivos para nosso estado de saúde do que a própria separação.
Parece que a chave do Bem Viver é a nossa capacidade de cultivar e viver bons relacionamentos.
Como sugere Robert Waldinger, o quarto diretor desta pesquisa, podemos iniciar uma revolução relacional por meio de simples ações, como por exemplo, trocar o tempo de tela de celular ou computador por um tempo de conversa com as pessoas de nosso convívio. Podemos também experimentar reanimar uma relação de anos vivendo experiências novas junto da pessoa amada. Podemos procurar um familiar que se distanciou por algum conflito e nos reconciliarmos, evitando as marcas dolosas do rancor em nossa saúde. Como disse Waldinger citando Mark Twain, levando em conta que a vida é muito breve para gastarmos nossa energia com amarguras, discussões banais, com tirar satisfações… Só há tempo para o amor.
O amor se constrói com bons relacionamentos.
Aproveitemos essa poética e verdadeira constatação para voltarmos aquele parêntese sobre tudo que nos foi ensinado, por meio de ideias, palavras ou exemplos sobre os objetivos que devemos ter na vida. Nossa educação, seja em casa ou na escola, nos ensina ou privilegia os relacionamentos? Nos ensina a amar? Você foi estimulado a perceber como se sente ou a engolir seus sentimentos? Você percebe suas reais e pessoais necessidades ou está sempre atrás de preencher um vazio inespecífico? Você vive relacionamentos mais cooperativos e amorosos do que competitivos? Você se sente nutrido ou drenado em suas relações?

A mim parece que é mesmo hora de questionarmos crenças que compramos e herdamos e que não nos tem conduzido para uma possível boa vida.
Em seu livro A Arte de Ser e Viver, o pesquisador Rex Thomas nos dá uma boa dica por onde começar. Ele nos mostra que a qualidade de nossas relações é diretamente proporcional à qualidade do relacionamento que temos com nós mesmos.
Então me despeço com outra provocação: você é seu (sua) melhor amigo (a)? Você se conhece bem? Se cuida? Você ama você?




