Avanços globais e os caminhos de cibersegurança para o Brasil

Por Beto Marcelino, presidente do Conselho do Grupo iCities

Começo a reflexão de hoje com a afirmação de que é fundamental reconhecermos que, junto com a transformação digital global, surge a necessidade de uma nova ética tecnológica, que deve ser alicerçada em três pilares: a responsabilidade, a transparência e a segurança. 

Neste contexto, já vemos uma movimentação em países como os membros da União Europeia e os Estados Unidos, que estão reformulando suas legislações para enfrentar os desafios contemporâneos da cibersegurança. E observar essas iniciativas representa para o Brasil uma oportunidade valiosa de fortalecer suas políticas e práticas para, então, garantir um ambiente digital mais seguro e confiável para todos, bastante propício aos negócios. 

Antes de mais nada, gostaria de falar um pouco mais sobre o conceito de cibersegurança, que é um conjunto de práticas e tecnologias voltadas à proteção de dados, sistemas e redes contra acessos não autorizados, ataques e falhas que possam comprometer informações sensíveis, como dados bancários, biométricos, e até mesmo prontuários médicos das pessoas. Ao falarmos de um mundo cada vez mais digital e conectado, é primordial ter a segurança desses dados garantida para fortalecer a confidencialidade, integridade e disponibilidade das informações em todos os âmbitos. 

Queremos potencializar a criação de cidades mais inteligentes, que registram e armazenam dados de forma estratégica para serem usados na gestão pública, fazendo assim uma gestão humanizada: focada no cidadão e em sua qualidade de vida. Sendo assim, proteger essas informações não é apenas uma questão técnica, mas sim uma forma de cuidar das pessoas.

Durante a edição mais recente do IoT Solutions World Congress e do Barcelona Cybersecurity Congress, realizada em maio de 2025 na Fira Barcelona, um dos cases que mais chamou atenção foi a solução integrada de cibersegurança voltada à mobilidade urbana conectada. A iniciativa, apresentada por um consórcio europeu de empresas de tecnologia e governos locais, demonstrou como veículos autônomos, semáforos inteligentes e sensores de tráfego podem operar em rede com altos níveis de segurança, garantindo proteção em tempo real contra ataques cibernéticos e falhas sistêmicas. O projeto incorporava princípios de “segurança por design”, que é quando a ferramenta já é desenvolvida com a sua segurança incluída no projeto desde o início, além de inteligência artificial embarcada para detecção de ameaças e resposta automatizada.

Essa solução mostra como a cibersegurança, aliada à governança de dados e ao uso responsável da IA, pode criar ambientes urbanos mais resilientes e preparados para a transformação digital e serve como referência concreta para cidades brasileiras que buscam implementar infraestrutura inteligente com segurança e responsabilidade.

A União Europeia implementou o Regulamento de Ciber-Resiliência, que estabelece requisitos obrigatórios de cibersegurança para produtos com componentes digitais. Essas medidas visam garantir que dispositivos conectados sejam seguros desde a sua concepção até o seu descarte, o que promove uma cultura de “segurança por design”. 

A integração de novas tecnologias, como a inteligência artificial (IA), também está no centro das discussões sobre a ética tecnológica, e não posso deixar de mencioná-la. A União Europeia também aprovou o Regulamento da Inteligência Artificial, que tem como objetivo promover uma IA centrada no ser humano, segura e confiável, e que assegure a proteção dos direitos fundamentais dos cidadãos, como acesso à saúde e à segurança. O regulamento proíbe práticas consideradas inaceitáveis, como a categorização biométrica baseada em dados sensíveis e o reconhecimento de emoções em ambientes de trabalho e escolas, exceto por razões médicas ou de segurança.

Já nos Estados Unidos, a Securities and Exchange Commission (SEC) introduziu regras há alguns anos que obrigam empresas públicas a divulgarem incidentes cibernéticos significativos em até quatro dias úteis. 

Acredito que essa transparência seja primordial quando falamos da busca pelo fortalecimento da confiança de todos os envolvidos nos processos, o que engloba desde investidores até o público em geral. 

O Brasil avança com o lançamento da Estratégia Nacional de Cibersegurança (e-Ciber) para o período de 2025 a 2028, com o objetivo de fortalecer a proteção digital no país, com foco na proteção de infraestruturas críticas, capacitação de profissionais, incentivo à inovação e promoção da cooperação internacional. Este plano busca ampliar a resiliência cibernética do país, aprimorar a governança digital e engajar setores público e privado na prevenção e resposta a ameaças virtuais.

Assim como essa estratégia, acredito que seja crucial para o Brasil considerar a implementação de regulamentações que garantam que o desenvolvimento e a aplicação de novas tecnologias ocorram de maneira ética e segura. Isso inclui também a criação de marcos legais que abordem questões como viés algorítmico, transparência e responsabilidade.

Outro ponto de extrema relevância é a educação e a conscientização, pois são esses os pilares fundamentais para a construção de uma ética tecnológica que pode ser aplicada na prática e de forma mais robusta. Não adianta apenas pensarmos em soluções cada vez mais tecnológicas e “high tech” e não considerarmos a urgência em se investir em programas de capacitação e campanhas de sensibilização. Essas ações podem reduzir significativamente os riscos associados à falha do fator humano, que deve ser sempre levado em consideração e é um ponto importante de vulnerabilidade dentro de toda a cadeia de segurança. 

Também é essencial para o sucesso destas medidas a colaboração entre setores público e privado, que devem agir com parcerias estratégicas e que têm o potencial de acelerar o processo da adoção de boas práticas e do fomento à inovação. Esses são os agentes que asseguram que as soluções desenvolvidas atendam verdadeiramente às necessidades reais da sociedade.

Para o Brasil, olhar para fora e compreender a importância de se adotar legislações nacionais com padrões internacionais pode facilitar a cooperação com outros países, fortalecendo a posição do país no cenário global e favorecendo a geração de novos negócios.

Em suma, eu vejo que um caminho promissor e viável é a observação, adaptação e implementação das melhores práticas internacionais no cenário interno. Digo isso para que o Brasil não apenas aprimore sua postura em cibersegurança, mas também lidere pelo exemplo na promoção de uma ética tecnológica que priorize a segurança, a transparência e o bem-estar coletivo, gerando cada dia mais qualidade de vida ao cidadão que, no final, deve ser o foco de todas as nossas ações para o futuro.   

Beto Marcelino é presidente do Conselho do Grupo iCities e sócio-fundador da holding brasileira referência no ecossistema de inovação urbana e cidades inteligentes. Agente pioneiro da temática, foi um dos relatores da Carta Brasileira de Cidades Inteligentes, iniciativa do Ministério das Cidades, e também integrou o programa Cidades 4.0, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), contribuindo para a construção da Política Nacional de Cidades Inteligentes.

Formado em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)  com especialização em cidades inteligentes pelo Smart City Expert e MBA em Marketing pela FAE Business School, é embaixador da Fira Barcelona no Brasil, fortalecendo a conexão entre eventos globais e o contexto urbano brasileiro.

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