AS BONECAS ABAYOMI E O (RE)ENCONTRO PRECIOSO COM O IORUBÁ

Por Analyz Pessoa Braz

Abayomi é uma palavra iorubá. Iorubá é uma região da África Ocidental, ao sul do Rio Níger. Iorubá é um povo. Iorubá é a pessoa pertencente ao povo nagô e é o idioma nigero-congolês. O iorubá tem relatos míticos chamados ìtans, transmitidos oralmente, com ensinamentos sobre a vida e o mundo. Relatos que direcionam a humanidade para condutas de coexistência harmônica, individual e coletiva, comprometidas com o outro e com o meio ambiente.

Para construir um futuro melhor, entendo que devemos primeiro reconhecer e integrar as lições do passado, para, então, mirar as cidades que desejamos (re)moldar. 

Flor cor de rosa

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Foto 1: Imagem do acervo pessoal de boneca Abayomi

Abay significa encontro. Omi quer dizer precioso. Gosto de começar pelo nome e pelo significado para, então, buscar um sentido. Paulo Freire, na obra Pedagogia da Autonomia (1996)1, ensina que “ter sentido” envolve um processo de conscientização e empoderamento, numa descoberta interna movida pela reflexão sobre a própria realidade. Sempre ao pensar nisso, me vem um trecho de um livro clássico da literatura brasileira: Vidas Secas, de Graciliano Ramos. 

Sim, com certeza as preciosidades que se exibiam nos altares da igreja e nas prateleiras das lojas tinham nomes. Puseram-se a discutir a questão intrincada. Como podiam os homens guardar tantas palavras? Era impossível, ninguém conservaria tão grande soma de conhecimentos. Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas. Não tinham sido feitas por gente. E os indivíduos que mexiam nelas cometiam imprudência. Vistas de longe, eram bonitas. Admirados e medrosos, falavam baixo para não desencadear as forças estranhas que elas porventura encerrassem.2

Essa passagem traz a relação de duas crianças com o mundo ao seu redor:  um sertão nordestino marcado pela seca e miséria. Os meninos se deparam com objetos vistos na igreja e nas lojas, que representam um mundo distante da realidade deles e são associados a nomes desconhecidos. A discussão sobre como os homens conseguem “guardar tantas palavras” reflete a dificuldade em compreender e se integrar a um mundo letrado que lhes é inacessível.

O “falar baixo para não desencadear as forças estranhas” demonstra um misto de admiração e temor diante do desconhecido. Os personagens reconhecem o poder dos objetos, mas também sentem que mexer neles pode trazer consequências imprevisíveis.

Num mundo de conceitos, a linguagem pode ser uma ferramenta de integração e compreensão, mas só depois de deixar de ser barreira. Desse modo, o primeiro desafio de qualquer pretensão de melhoria é refletir, como Paulo Freire propôs, para então sugerir movimentos significativos na prática e no dia a dia das pessoas

Dito isto, optei por começar pelo significado de Abayomi trazendo-o como um símbolo histórico do movimento negro e da identidade afro-brasileira. No final dos anos 1980, Lena Martins3, educadora e militante do Movimento das Mulheres, liderou uma ação de confecção de bonecas num momento em que o Movimento Negro se deparava com a marcha sobre os 100 anos de “abolição”. 

As bonecas são organicamente feitas com retalhos sem qualquer costura: são “apenas” nós e tranças. Elas trazem uma dimensão da relação do Brasil com Nigéria, Benin, Togo, Costa do Marfim, com as etnias do continente africano, simbolizando, de um lado, a resistência e a história de superação e, de outro, esperança e continuidade em meio à adversidade. Esse símbolo antirracista foi uma criação que ganhou o país inteiro de uma forma revolucionária por meio de oficinas e vivências.

Seta

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Fonte: Coletivo Abayomi Boneca Preta Brasileira/2020 https://www.bonecaabayomi.com/

O povo iorubá, sociedade rica e complexa com estruturas sociais e políticas promovedoras da justiça, educação e sustentabilidade, é inspiração para as cidades inteligentes do futuro. Suas práticas institucionais e culturais, vide harmonia ecológica e agricultura sustentável, materializam os ideais almejados servindo de guia para comunidades mais justas e empáticas. 

Ao resgatar e integrar essas abordagens iorubás nas cidades inteligentes, avançamos rumo a um futuro em que justiça, sustentabilidade e inclusão deixam de ser meras aspirações para se tornarem fundamentos operacionais.

Nesta coluna, as bonecas Abayomi prestam um tributo necessário às tradições de um povo silenciado, reforçando a importância de reconhecer e valorizar suas heranças culturais. Nas próximas edições, a proposta será estimular um diálogo contínuo sobre como essas práticas ancestrais podem contribuir para a construção de uma cidadania consciente, com muito axé4.

  1.  FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
  2. Trecho do livro Vidas Secas de Graciliano Ramos, quando os filhos do personagem Fabiano chegam à cidade. Acessado no sítio http://www.labtecgc.udesc.br, em 20/08/2012.
  3. Leia mais sobre história da artesã maranhense e sobre o Coletivo Abayomi Boneca Preta Brasileira em https://www.bonecaabayomi.com/
  4. Axé, ou asè, significa força de realização e poder em iorubá. Nas religiões afro-brasileiras do candomblé e da umbanda, axé é uma expressão que traz uma simbologia de positividade e resistência.

Analyz Pessoa Braz é advogada pública com experiência tanto na advocacia quanto na academia. Bacharel em Direito pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (2010). Mestre em Memória: Linguagem e Sociedade (2014), especialista em Direito Público (2011), em Direito Negocial e Imobiliário (2025) e discente do MBA de Gestão do Direito nas Empresas pela FUNDACE/USP. Atua na EMBASA (Empresa Baiana de Águas e Saneamento) desde 2013 onde também é instrutora interna, tendo certificação pela Universidade Corporativa do Servidor do Estado da Bahia. Sua contribuição acadêmica se destaca em temas como biopolítica, segurança pública, videomonitoramento, regularização fundiária e direito ao saneamento básico. 

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